Mitologia Germânica ANO II

Sociedade e Educação  

 

As classes sociais:

 

A sociedade Viking era muito estratificada. Dentro de cada região da Escandinávia, havia uma estrita hierarquia com um chefe ou rei no comando e uma aristocracia que servia de apoio ao seu poder. Abaixo, estavam os fazendeiros, comerciantes e pescadores. No estrato mais inferior, os escravos. Juridicamente, só existiam os homens livres e os não-livres (escravos), sendo que os primeiros eram protegidos pela lei e podiam participar das Things (assembléias). A estrutura social não era rigida, assim, um escravo poderia adquirir liberdade, assim como um fazendeiro poderia se tornar um nobre.

O rei (konungr) era basicamente um chefe militar, religioso e administrador que garante a paz no seu território. Seguindo a velha tradição germânica, o rei era o primeiro entre seus iguais. No início da Era Viking, quando toda a Escandinávia era dividida em muitos clãs, um chefe local tornou-se rei apenas porque foi nomeado por outros chefes nas assembléias. Nos últimos momentos da Era Viking, a monarquia se transforma em um instrumento mais poderoso, unificador e centralizador, e a herança tornou-se regra, ao invés da nomeação. Mas se o poder real era hereditário nesse momento, a sucessão de pai para filho não era garantida. Assim, outro membro da família poderia disputar a sucessão, originando violentos conflitos. Reis e rainhas eram enterrados com grande ostentação. A fonte de toda essa riqueza, no início da Era Viking, era a posse das terras, nos produtos e impostos pagos pelos trabalhadores. Com a crescente complexidade da sociedade, as receitas reais começaram a ser adquiridas com impostos mercantis e alfandegários. A cunhagem de moedas foi uma típica atividade demonstradora de poder político e econômico, por parte da realeza nórdica.                        

A classe dos nobres (jarls), formava a base da aristocracia, que também era hereditária. Todas as propriedades, família e bens legais passavam para o filho mais velho. Esta classe exercia uma influência muito grande nas assembléias regionais. Eram os constituidores do principal suporte militar de uma comunidade. Formavam a base dos chamados chefes locais (lendrmadr, na Islândia eram chamados de godhar), que exerciam autoridade em nome do rei. Em algumas regiões, como a Noruega, o poder dos jarls era tão grande que dificultou a formação de um reino unificado. Os jarls exibiam sua condição privilegiada através da qualidade superior de suas vestimentas, jóias e armas. Os homens usavam mantos finos de lã, presos aos ombros por sofisticados broches, cobrindo túnicas muito belas. As espadas possuíam um fino acabamento nos punhos. Suas damas ostentavam broches, colares e braceletes de prata e ouro. Os vestidos (vadmal) eram tingidos por corantes caros, com motivos, plissadas e bordados muitos sofisticados. O principal traje feminino era uma única túnica fina, comprida ou curta.

A classe mais numerosa da Escandinávia Viking era a dos karls, todos os nórdicos que não eram escravos e nem nobres. Podiam possuir e usar armas, assistir e falar no Thing. A maioria dos karls eram granjeiros ou fazendeiros, chamados de bóndis. Mas haviam também os pescadores, comerciantes, construtores de navios, ferreiros, artífices, carpinteiros, etc. Os bóndi podiam também ser muito ricos, devido à quantidade de terras, escravos e ao controle total de suas propriedades, ao contrário do feudalismo reinante na Europa da época. Outra forma de reafirmar seu prestígio eram as alianças com os jarls. A classe dos karls servia como reserva de combatentes dos exércitos reais, convocados em época de grandes conflitos ou invasões estrangeiras.

Os escravos tinham o nome de thrall e eram fundamentais para a economia. Executavam os trabalhos menos valorizados e não possuíam mais direitos do que um cavalo ou um cão, pois pela lei, eram propriedades. Seus donos tinham poder de vida e morte sobre eles, e até o advento do cristianismo, matar um escravo não era considerado crime, especialmente as mulheres (muitas das quais eram oferecidas a sacrifícios religiosos). A escravidão podia ser uma pena imposta para pessoas capturadas em outros países, punições para certos crimes, pagamento de dívidas ou, simplesmente, pessoas nascidas em servidão, pois ela também era hereditária. Alguns homens livres podiam ser convertidos em escravos por dívidas, e após o saldo desta, voltavam a ser livres novamente. Praticamente em todas as propriedades escandinavas existiam servos e escravos. Os escravos podiam comprar sua liberdade, mediante cultivo de lotes de terra concedidos por seus proprietários. Não existem indícios arqueológicos de sepultamento de escravos. Possivelmente, após a sua morte, o corpo do escravo era simplesmente desfeito sem qualquer cerimônia. Um dos grandes entrepostos Vikings para vendas de escravos foi na região do Volga, e eles serviam como mercadoria de troca para o comércio com o califado abássida de Bagdá. A instituição da escravidão desapareceu da Escandinávia entre os séculos 12 e 14 de nossa Era.

 

Regras sociais, família, educação:

 

A família era o núcleo social mais importante do mundo nórdico. Decisões familiares muitas vezes eram mais importantes até do que as individuais. Também ocorriam com frequência rivalidades entre famílias, algumas resolvidas no Thing, outras em duelos combinados. Ou então, após o pagamento de uma multa pela parte culpada (pago em público), ou o uso do ordálio (prova por meio da dor física, onde o resultado é considerado de caráter sobrenatural). Todos os escandinavos dependiam de sua família para obter alimentos, abrigo, companhia e principalmente, proteção e vinganças.

A noção de família (fjolskylda) era diferente da moderna: numa mesma casa, moravam os avós, pai, mãe, irmãos e primos do pai, crianças e os escravos. Todas as pessoas de uma família comiam, dormiam, trabalhavam e cozinhavam dentro das residências, em um único aposento sem divisões. O ambiente interior das residências era muito escuro e insalubre. Somente os ricos viviam em casas confortáveis.

Os filhos mantinham uma relação muito estreita com os pais, e mesmo após o casamento continuavam a trabalhar na fazenda da família paterna. Os membros de uma fjolskylda mantinham obrigações de suporte mútuo. Se a honra da família era maculada, os membros deveriam defendê-la, mesmo em casos de assassinato ou injúria contra um membro dela (no caso, a realização da vingança de sangue). A família era responsável pelo suporte material de todos os membros, principalmente aqueles que pela idade ou doença, não podiam trabalhar.

Como em muitas culturas, as crianças Vikings brincavam com miniaturas que imitavam a vida adulta, como espadas e armas de madeira, além de jogos de tabuleiro e de bola. A educação formal era desconhecida. O pai tomava toda a responsabilidade da educação, e alguns skalds (poetas) complementavam com narrativas orais. Algumas crianças eram tratadas com muita severidade, outras com mais tolerância. Desde muito cedo, as crianças colaboravam diretamente nos trabalhos das fazendas, artesanato ou negócios. Inicialmente, meninos e meninas são convocados para trabalhos simples. Posteriormente, com o avanço da idade, são incumbidos de tarefas apropriadas para seu sexo, como exemplo, fiação e tecelagem para as garotas e metalurgia para os garotos. Entre os 13 e 19 anos, ocorre a passagem para a vida adulta. Na aristocracia e realeza, garotos são convocados para atuarem na política e guerra na metade da adolescência. Harald Hardrada tinha somente 15 anos quando atuou na batalha de Stiklestad em 1030.

Nos tempos paganistas, o aborto e a exposição de recém-nascidos era permitido (geralmente abandonados em bosques). O bebê deveria ser aceito pelo pai para poder viver. Não conhecemos as concepções paganistas sobre a vida após a morte para elas. Como também não existem vestígios de enterros em cemitérios e nem estelas ou memoriais para crianças.

Após o casamento, a mulher não mantinha mais relações com sua família natal. Ela tinha que cuidar das crianças pequenas, preparar e cozinhas o alimento, limpar a casa e lavar a roupa. Era a mulher que cuidava dos feridos, doentes e idosos. Quando o homem estava ausente, ela ficava encarregada da autoridade doméstica – seu símbolo era um molho de chaves preso ao cinto. Desde menina, a mulher aprendia a ser quieta e obediente. Geralmente eram os pais que escolhiam o marido para as filhas, mas elas não eram obrigadas a casar. Nem a idade ou a falta de virgindade eram empecilhos para o casamento. O casamento (kostr) era organizado em duas etapas: o noivado e o matrimônio (brullaup). A iniciativa partia do noivo ou de seu pai, que realizava a proposta para o pai ou guardião da noiva. Se este último ficasse satisfeito, o pretendente prometia pagar um preço pela noiva (mundr). Enquanto solteira, a mulher ficava sob a guarda jurídica do pai ou irmão, e com o casamento, essa responsabilidade passava para o marido. Os poderes do homem sobre a esposa eram grandes: ele podia ter concubinas, matar a esposa adúltera e o amante e mandar matar um bebê doente. Entretanto, as mulheres podiam pedir divórcio (entre os motivos, por exemplo, a impotência), ter propriedades e bens legais. As viúvas podiam se tornar poderosas com a herança do marido.

Não existem evidências da participação feminina em batalhas como guerreiras (a exemplo do que ocorria com os Celtas), mas as mulheres nórdicas eram integrantes de expedições colonizadoras e mesmo nas fazendas e propriedades, podiam participar na defesa armada em casos de ataques. Um caso célebre envolvendo mulher em conflitos foi com a filha de Erik, o vermelho, chamada de Freydis. No momento em que sua fazenda (situada na América do Norte) estava sendo atacada pelos indígenas denominados de Skraelings, ela mesmo estando grávida, desnuda seus seios e os ataca com seu machado. Os agressores, aturdidos por uma cena tão insólita – combatidos furiosamente por uma mulher com cabelos de fogo e grávida - acabaram fugindo do local.

  

Texto de Johnni Langer, Doutor em História pela UFPR.

     

   

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ReferênciaS BIBLIOGRÁFICAS:

   

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Página criada em 10/11/2004. 

 

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