A
Versificação dos Poemas Édicos
A
maioria dos cantos foi composto em longos versos
aliterados, fato que serve para indicar sua
procedência de tempos antigos, se considerarmos
que essa é uma das características essenciais
da primitiva poesia dos povos germânicos. As
rimas no final dos versos foram introdizidas
pelos latinos e, são uma forma mais recente de
versificação.
Não
se trata de simples aliteração onomatopaica,
empregada mais tarde nos países Escandinavos,
na Alemanha e na Inglaterra, e nem tão pouco
visava criar efeitos rítmicos, pois esses
poetas, que davam grande valor a consistência
dos sons, procuravam tirar sérios proveitos
psicológicos das combinações aliteradas. Como
ainda podemos observar hoje nas línguas
germânicas, naturalmente em escala muito menor,
cada consoante precisava corresponder às exigências
internas do homem, em luta constante à procura
de reforço e equilíbrio.
A
questão se prende a duas outras
particularidades dessas línguas, ou sejam o
acento de intensidade da primeira sílaba, que
curiosamente, através dos séculos, vem
resistindo à ação da lei do menor esforço, e
a transformação das sonoras BDG em PTK,
processada na primeira "alteração fonética",
fenômeno interessantíssimo, por traduzir a
necessidade interna da defesa contra a falsidade
do tempo, que atua intermitentemente sobre a
expressão, abrandando-lhe a dureza e a força
primitivas.
As
aliterações édicas encerram, portanto,
valores intrínsecos da expressão e se ligam
diretamente à idéia que o poeta quer
transmitir. Devemos considerar também que essas
aliterações, em maior número, são de
consoantes ou raízes duras, que traduzem
pensamentos fortes e dinâmicos, com SK, KR e
TR. Há exemplos de versos aliterados em L e S,
mas, neste caso, indicam passividade e indiferença,
em contraste com dois ou três ásperos, da
mesma estrofe. As aliterações vocálicas também
podem ser formadas de vogais diferentes.
No
idioma nórdico (Old Norse), os sons inicias das
aliterações são chamados stafir
'verso', o som da segunda meia-linha, hofuðstafr
'meio-verso', do mesmo modo governando toda a
linha. Qualquer coisa de maior magnitude que em
Anglo-Saxão é admitido em Old Norse na maneira
deste 'meio-verso' caindo somente na primeira tônica
da segunda meia-linha. Na primeira meia-linha,
outra tônica, ou ambas – elas são chamadas stuðlar
'suportes' – pode receber a aliteração.
Com
consideração à estrutura rítmica da
meia-linha, certos tipos fundamentais, em número
de cinco, vemos terem sido inseridos em todas as
poesias germânicas – inconscientemente, sem dúvida.
Estes tipos são os seguintes:
Tipo
A:
_‘X
| _’X
exemplo:
Geýr nu Gármr mjak
Tipo
B:
X_’
| X_’
exemplo:
hann sjáldan sítr
Tipo
C:
X_’
| Ú X
exemplo:
mun Báldr kóma
Tipo
D:
_’
| _’ ‘_X
exemplo:
mágr Hlóðynjar
Tipo
E:
_’
‘_X | _’
exemplo:
gínnheìlug góð
(Völuspá
50, 18, 54, 47 & 33, 6 & 37)
Quanto
ao tipo dos versos constantes do Codex Regius,
são na maioria longos, divididos em hemistíquios,
com dois vísuhelmings ou meia-estrofe, por uma cesura (divisão do verso),
unidas em aliterações, cuja distribuição é
indiferente, contando que cada uma delas tenha
uma aliteração. Do contrário na poesia dos Skálds
os versos são corridos, sem cesura.
As
estrofes mais comuns constituem-se de quatro
versos longos, que os escandinavos chamam de fornyr
usualðislay, ou fornyrðislay,
isto é, "metrificação antiga",
exemplo encontrado na Völuspá. Cada
linha é dividida por uma pausa cesural em duas
metades, com cada uma contendo duas sílabas tônicas
e duas (às vezes três) átonas. As duas
metades de linha formando a linha completa são
unidas pela aliteração, ou mais
apropriadamente “rima inicial”, de três (ou
duas) das sílabas tônicas.
Exemplo
(com as tônicas sublinhadas):
Vreiþ
vas Vingþórr, es vanaþi
ok síns hamars
of saknaþi;
skegg nam hrista,
skor nam dýja,
réþ Jarþar burr
umb at þreifask.
Em
menor escala encontramos estrofes de dois versos
longos, com cesura, e dois curtos, sem cesura,
que se alternam. São os ljoðaháttr,
isto é, "fórmulas mágicas", exemplo
encontrado no Hávamál. Portanto a
primeira e a terceira linha de cada estrofe são
como já foi descrito, mas a segunda e a quarta
são mais curtas, não têm pausa cesural, têm
três sílabas tônicas, e geralmente duas sílabas
tônicas rimadas no início.
Exemplo:
Ar
skal rísa
sás annars vill fé
eþa fior hafa;
liggjandi ulfr
sjaldan láer of getr né sofandi
maþr sigr.
Ainda
há um terceiro tipo, menos comum, são os Málaháttr,
isto é, “métrica de fala", somente
encontrado no Atlamál
hin groenlenzku,
e no Atlakviða
e Hamðismál,
“misturados” com estrofes fornyrðislay.
É uma
forma de verso mais recente que as duas
primeiras, com cada linha da estrofe de quatro
versos dividida em duas metades por cesura, com
cada metade tendo duas sílabas tônicas e três
(às vezes quatro) átonas; a rima inicial é
como no estilo fornyrðislay.
Exemplo:
Horsk
vas húsfreyja hugþi
at mannuiti,
lag heyrþi òrþa,
huat á laun máeltu;
þá vas vant vitri,
vildi þeim hjalþa:
skyldu of sáe sigla,
en sjolf né kvamskat
Um
poema em estilo fornyrðislay é normalmente intitulado __kviða
(Þrymskviða, Guðrúnarkviða, etc), enquanto um poema no
estilo ljoðaháttr
é intitulado __mál (Grimnismál,
Skirnismál, etc). É difícil encontrar
qualquer outra distinção que não métrica
entre os dois tipos de poema.
ReferênciaS
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Snorri. (1993) Edda em Prosa: Textos da
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tradução, apresentação e notas de Marcelo
Magalhães Lima, Rio de Janeiro, Numen Editora. ISBN
85-7260-002-7
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