A
Criação da Moderna Imagem sobre os Vikings
“A furore Normannorum libera nos, Domine!
(Protege-nos
do furor dos homens do Norte, Senhor!)”
Expressão européia, século VIII-IX.
A
palavra viking causa duas reações distintas
em muitas pessoas. De um lado, provoca temor
ou desprezo, e de outro, uma grande fascinação.
De todos os povos denominados bárbaros dentro
do referencial greco-romano, nenhum tornou-se
tão famoso, a ponto de merecer tanta importância
na cultura moderna. Mas essa popularidade teve
um preço. Ocultou muitos aspectos sobre a
verdadeira identidade desta cultura, criando
falsas imagens do guerreiro nórdico:
imediatamente associado a um capacete portando
enormes chifres. O interessante neste estereótipo
é que sua influência atinge até mesmo os
atuais povos auto-conclamados descendentes dos
“filhos de Odin”.[i]
Basta verificarmos a quantidade de torcedores
suecos e noruegueses durante alguma copa do
mundo, portando alegóricos capacetes com
cornos. A que se deve essa falsa imagem?
Quando teve início a moderna representação
do bárbaro nórdico? Antes de conhecermos o
terreno do imaginário, é necessário alguns
parâmetros comparativos. Torna-se importante
conhecer a verdadeira face deste personagem.
O
Viking da arqueologia
Os
guerreiros nórdicos entraram para a História
entre 793 a 1100 d.C., período em que
efetuaram longos ataques em diversos pontos da
Europa. Na realidade, sua cultura já estava
bem estabelecida nesta época, o que leva
muitos pesquisadores a buscar as origens
vikings muitos séculos antes de Cristo. As
evidências arqueológicas demonstram que os
primeiros nórdicos foram povos nômades, que
viviam da caça, pesca e colheita temporária,
ao longo das costas e dos lagos. Com a
passagem para os períodos do bronze e ferro,
esses povos tornaram-se mais sofisticados,
aumentando os centros rurais. Enquanto na
Europa continental ocorriam grandes conflitos
após o final do império romano, nas terras
escandinavas a expansão da agricultura
acarretou uma forte estabilidade social e política,
gerando uma explosão demográfica.
Basicamente,
traçamos um cenário genérico para chegar a
um ponto de discussão. Enquanto que para os
historiadores o período viking inicia-se em
793 d.C., no momento de ataque ao mosteiro de
Lindsfarne, Inglaterra, para os arqueólogos
este momento aconteceu num outro contexto:
“o início da época viquingue pode ver-se
claramente no afastamento do estilo de vida do
período de Vendel e a aproximação a um
estilo diferente – uma cultura diferente –
na segunda metade do século VIII.”
(Graham-Campbell, 1997, p. 38). Desta maneira,
podemos considerar a origem dos guerreiros nórdicos
como o resultado da ampliação de sociedades
poderosas, cuja cultura modificou-se a partir
de influências do continente. Mas em relação
ao indivíduo, como era o homem viking?
A
análise antropológica dos esqueletos
recuperados indicam que os nórdicos tinham crânio
longo, e uma estatura média – em torno de
1,70m - um pouco mais baixa que a população
escandinava atual (p. 40). Uma imagem,
portanto, diferente do viking como um
guerreiro imenso, de grande estatura, muito
comum nas modernas representação culturais.
A aparência, baseada em reconstituições de
estatuetas e pinturas, apresenta homens de
cabeça “finamente formada, barba curta
sobre o seu queixo forte e saliente, o cabelo
bem tratado e fino perfil que se prolonga em
seu capacete cônico.” (Brøndsted,
s.d., p. 229).
No
vestuário, tanto o homem quanto a mulher
usavam sapatos de couro abertos, com forma
semelhante à das sapatilhas, e capas de pele
e lã. As mulheres utilizavam longos vestidos
de lã e anáguas de linho que iam até o
tornozelo. Cada classe tinha também uma roupa
específica: a alta (karls e jarls) usava um
casaco de linho ou blusões cortados e
cintados; a classe baixa, geralmente de
escravos (thralls), utilizavam roupas folgadas
feitas de lã toscamente tecida
(Graham-Campbell, 1997, p. 67; Gibson, 1990,
p. 20).
Todos
os homens livres tinham o direito de usar
armas, e no momento de guerra, eram obrigados
ao alistamento. O combate geralmente era feito
a pé, utilizando-se a espada, a lança e o
machado de combate, e mais raramente, facas,
arcos e flechas. As cotas de malhas de ferro
eram privilégio somente dos mais ricos, sendo
herdadas de pai para filho. A espada era a
principal arma, sendo também símbolo de posição
social. A segunda arma preferida era o
machado.[ii]
Enquanto a espada foi comum para toda a Europa
medieval, as achas eram utilizadas no
continente preferencialmente como objetos
cerimoniais e heráldicos. Mas para os
escandinavos tornou-se uma arma característica:
“A pedra de Lindisfarne traz um entalhe de
Vikings em coluna de marcha carregando suas
duas principais armas, o machado e a espada,
erguidos bem acima de suas cabeças.” (Brøndsted,
s.d., p. 99). O
mais importante equipamento de defesa era o
escudo, geralmente de madeira e redondo. Era
pintado e reforçado no centro por uma argola
de ferro.
A
maior diferença entre o estereótipo moderno
e o verdadeiro guerreiro, reside no uso de
capacetes. Um dos únicos exemplares
recuperados, em um túmulo norueguês, é
abobadado com um penacho central e uma viseira
para proteger o nariz e as faces.[iii]
Em desenhos gravados em megálitos, pedras
decoradas e estatuetas, todas apontam para uma
mesma conclusão: o capacete era de formato cônico,
liso e sem qualquer protuberância,
especialmente cornos (p. 55). Alguns autores
apontam a semelhança com o capacete dos saxões,
com o mesmo formato (Byam, 1990, p. 14).
O
Viking das
crônicas históricas
Foi
com a expansão nórdica, que surgiu a expressão
“viking”, mas sua exata origem e sentido
ainda é motivo de muita controvérsia. Para
Michael Gibson, o termo poderia derivar da
palavra anglo-saxônica wic,
que significa acampamento, dando origem a
viking, guerreiro armado. Mas os escandinavos
antigos não chamavam a si próprios de
vikings, talvez adotando o nome da região de
origem (1990, p. 10).[iv]
Os suecos eram conhecidos por varegues,
mercadores, de vârar
– garantias (Louth, 1979, p. 165). Segundo
Graham-Campbell, vik significa baía ou enseada nas línguas escandinavas, ou ainda,
uma referência aos locais de comércio na
Europa continental. Para os europeus
medievais, as pessoas da Escandinávia eram
conhecidas por northman ou escandinavos, e a expressão viking só teve início
generalizado com o surgimento dos movimentos
nacionalistas, a partir do século XIX (p.
39).[v]
Os
vikings não foram apenas guerreiros e
piratas, mas também comerciantes,
agricultores, artistas, ourives, exploradores
e colonizadores. Para a sociedade escandinava,
um bom poeta era tão respeitado quanto um
grande guerreiro (The viking saga, 1998). Por
meio dos relatos e crônicas medievais, os
historiadores conseguiram reconstituir
diversos aspectos da vida social dos nórdicos.
Adam de Bremen, por exemplo, descreveu em 1075
os três países escandinavos. Sobre a aplicação
da justiça, ele comentou: “quando um homem
é condenado, é honroso que ele permaneça
alegre, já que os dinamarqueses detestam lágrimas
e lamentações e todas as outras expressões
de aflição que consideramos saudáveis, em tão
alto grau que ninguém chora por seus pecados
ou pela morte de seus amados.” (Apud:
Brøndsted, s.d., p. 209). Tratando
dos suecos, Bremen destacou principalmente a
grande hospitalidade para com os estrangeiros.
Também esse escritor medieval descreveu o
arquétipo do homem viking, uma das imagens
que mais aproxima-se do verdadeiro guerreiro:
“cada um deles tem um machado, uma espada e
uma adaga. Um manto cobre a metade do corpo,
enquanto o outro braço permanece exposto.” (apud:
The viking saga, 1998).
Com
relação ao asseio pessoal, um dos mais
famosos relatos sobre os vikings fornece
pistas. O viajante árabe Ibn Fadlan, quando
esteve em contato com os suecos do Volga em
920 d.C., descreveu-os como extremamente
sujos, pois não se limpavam após fazerem
suas necessidades naturais e nem se lavavam
depois de uma refeição (Brøndsted, s.d., p.
233).[vi]
Por sua vez, para com os dinamarqueses que
colonizaram a Inglaterra, as fontes apontam um
comportamento diferente. Os homens seriam
cuidadosos com o asseio, penteavam os cabelos,
tomavam banho aos sábados e mudavam com frequência
a roupa de baixo (p. 234). Do mesmo modo, o
viajante mouro At-Tartuschi no século X,
impressionou-se pelas boas maneiras à mesa
dos vikings de Hedeby (Haithabu).
Uma
das maiores oposições à imagem dos vikings
como bárbaros cruéis e sem emoção, é em
relação às suas inclinações para a sátira.
Os apelidos eram muito comuns, derivados de
alguma deformidade física, ou mais
frequentemente, elemento de paradoxo satírico:
“sabe-se que Thord, o Baixo, era de altura
excepcionalmente alta, e outro viking, que se
afligia por causa de sua tez bastante escura,
era conhecido como o Loiro.” (p. 236).
Ao
contrário das outras regiões européias da
época, as mulheres vikings gozavam de ampla
liberdade. Podiam possuir terras, bens
materiais, cuidar do cultivo das fazendas e
comerciar. Eram elas que negociavam com os
mercadores visitantes, no momento em que os
maridos estivessem em expedições ou em
guerra (Gibson, 1990, p. 42). Até o momento,
vislumbramos pequenos detalhes do antigo
cotidiano dos escandinavos. Veremos a seguir,
como eles foram concebidos pelas outras
sociedades medievais.
O
Viking da arte medieval
As
representações européias sobre os vikings
tiveram início a partir das incursões sobre
a Inglaterra e França, no final do século
VIII. Mais dos que os aspectos geopolíticos e
militares, temos que pensar esses
acontecimentos do ponto de vista religioso.
Num período em que todas as antigas etnias bárbaras
já se encontravam cristianizadas no
continente, os nórdicos surgem como uma oposição
indireta ao domínio cristão. E suas
primeiras presas foram efetivamente mosteiros,
como Lindisfarne (793) e Jarrow (794). Nada
poderia ser mais horripilante ao imaginário
do período, do que uma horda de pagãos
matando padres e saqueando a santa Igreja.
Imeditamente, os vikings foram associados à
uma resposta divina aos pecados humanos,
citando-se uma antiga predição do profeta
Jeremias: “Do Norte virá um mal que
arruinará todos os habitantes da terra.”
(Graham-Campbell, 1997, p. 124). Um bom
exemplo dessa imagem de terror sobrenatural,
é uma escultura realizada no século IX, no
próprio mosteiro de Lindisfarne. De um lado
da lápide, foram representados sete
guerreiros nórdicos, todos empunhando espadas
e machados sobre as cabeças. Do outro lado da
escultura, uma referência ao dia do Juízo
Final. Lembramos também a importância simbólica
do número sete, também relacionado com a
besta do apocalipse. Desta maneira, a primeira
representação artística dos vikings pelos
europeus foi associada a motivos de temeridade
religiosa.
Durante
o século XI surgiram outras representações,
todas associadas às invasões. Em iluminuras
de uma história religiosa inglesa, foram
recriados os ataques do dinamarquês Ivar, o
Sem-Ossos, ocorridos em 866. As pinturas
reproduzem diversas embarcações pequenas,
com guerreiros barbados, portando escudos e
lanças. Os tipos de vestimentas e armamentos
não difere em nada dos utilizados pelos próprios
ingleses. Trata-se de uma representação alegórica
de um fato histórico, onde certos detalhes
– como uma pequena mão no alto de um dos
quadros – simbolizam a vontade divina sobre
os atos humanos.
Neste
mesmo século, foi criada a famosa Tapeçaria
de Bayeux, pela rainha Matilde, esposa de
Guilherme, o conquistador. Com 70 m, trata-se
de um documento ímpar sobre aspectos
cotidianos e o desenrolar da batalha de
Hastings, em 1066, na qual o duque Guilherme
tomou o reino anglo-saxão de Haroldo.
Diferentemente das representações
anteriores, essa tapeçaria possui um caráter
glorificador dos normandos, descendentes
diretos dos vikings, mas já cristianizados e
sem o seu caráter temerário. Os guerreiros
portam armamento típico dos normandos – uma
cota de malha que desce até os joelhos, um
capacete de peça única, e um escudo oblongo,
com a base pontiaguda. Um equipamento bem
diferente do utilizado nos primeiros séculos
vikings, pois efetivamente, tratava-se de
outro contexto histórico.
O
Viking da arte oitocentista
Foi
com o romantismo oitocentista que foram
criadas as modernas imagens sobre os bárbaros
europeus. Respondendo aos diversos anseios
nacionalistas, as antigas paisagens e os
personagens medievais foram resgatados para
construir identidades modernas: os celtas para
os franceses; os teuto-saxões para os alemães,
e os vikings para os escandinavos. Mergulhado
neste processo de glorificação do bárbaro,
surgem diversos pintores românticos que
captam toda a atmosfera de nostalgia reinante.
Em 1860, o norueguês Peter Arbo[vii]
executou o magnífico quadro Asgardreien,
representando com muito realismo uma antiga
reunião de vikings. Ainda durante essa década,
Arbo executou outros quadros que impressionam
pela imensa atualidade, como O
chefe viking e Haakon.
Detalhes de armamentos como malhas, espadas e
elmos estavam muito corretos. Outro artista de
origem norueguesa, Johannes Flintoe, nessa
mesma época pintou Duelo em Skiringsal, com as mesmas características de precisão que
seu compatriota.
Não
foram somente os escandinavos que realizaram
pinturas com veracidade histórica. Em 1870 o
inglês W. G. Collingwood terminou a pintura O Thingvellir, representando uma reunião de islandeses na época
viking. Em vez de utilizar-se de fontes literárias,
Collingwood dirigiu-se pessoalmente à Islândia,
concedendo extrema fidelidade geográfica e
cultural neste quadro – os trajes e indumentárias
dos islandeses estão bem corretos. Apesar
dessa tendência, especialmente nórdica, em
resgatar com razoável destreza os temerosos bárbaros,
inesperadamente surgiram algumas obras que
mudariam totalmente os rumos da iconografia
européia: quadros representando os vikings e
outros guerreiros com chifres em seus elmos.
Porque não foi seguida a mesma interpretação
visual dos anteriores pintores noruegueses?
Seria pela falta de informações mais
precisas?
A
imagem de bárbaros rudes foi perpetuada
frequentemente por artistas de nacionalidades
diferenciadas dos escandinavos, que não
tiveram um conhecimento empírico mais
profundo da cultura viking. Pois uma das
facetas da imagem do bárbaro está associada
a povos estrangeiros, geralmente não
civilizados ou portadores de condições
sub-humanas de sociabilidade. O melhor exemplo
deste aspecto foi a ilustração Chegada
dos normandos a França, de Guizot,
inserida na obra História
da França, de 1879. A maioria dos
guerreiros foi representada como verdadeiros
homens das cavernas, trogloditas embrutecidos
trajando peles de animais em torno do corpo.[viii] Guizot certamente uniu a imagem de caos e
primitivismo com a invasão dos povos nórdicos,
reservando desta maneira a civilização para
os franceses. No quadro, o chefe da expedição
porta um capacete com asas de dragão, um
detalhe tão fantasioso quanto terrível. Na
realidade, tanto este ornamento específico
dos elmos quanto os cornos e as asas laterais
de pássaros, já estavam sendo representados
na iconografia européia, geralmente
associados com figuras mitológicas.
Durante
a estréia da ópera Tristão
e Isolda, de Richard Wagner, na cidade de
Munique em 1865, uma imagem congregou todos os
tipos de ornamentos élmicos fantasiosos.
Tratava-se da ilustração para o ato final da
ópera, executado por J. Noerr. No momento em
que Isolda morre, ela é cercada por
guerreiros portando capacetes com galhadas,
cornos, asas de pássaros e dragões. Esta
obra específica de Wagner pretendia resgatar
os temas arturianos e medievais, oriundos de
influências célticas.
Quando
executou os painéis para a encenação, Noerr
pode ter tomado como referência as pinturas
anteriores de François Gerard e Gustav
Malmström. François Gerard foi autor da tela
“Ossian”
de 1800. Neste quadro um soldado irlandês
observa o deus celta Oisin[ix]
tocando sua harpa. Entre as indumentárias
deste soldado, percebe-se uma enorme e solitária
asa, encimada sobre um elmo de estilo romano.
Por sua vez, o artista sueco Gustav Malmström
foi autor das ilustrações para o livro “A
saga de Frithiof”. Uma versão moderna do
herói escandinavo, publicada por Esaias
Tegner em 1820. Em diversas telas, Malmström
representou alguns reis vikings com pequenos
chifres laterais em seus capacetes, e mais
frequentemente, asas de dragões. A associação
deste monstro folclórico é muito clara –
os antigos escandinavos prezavam muito a sua
existência, decorando cabeças e caudas de
dragões nas extremidades de seus famosos
barcos, os drakkars. A versão inglesa do livro de Tegner, publicada a partir
de 1839, incluiu uma série de pinturas
representando os vikings dentro do imaginário
moderno: ao contrário das telas de Malmström,
os cornos possuem um tamanho descomunal (Wawn,
2001).
Com
relação aos celtas, as asas de pássaros
também foram puramente aleatórias. O mesmo
pode ser considerado tratando das galhadas e
chifres. Os guerreiros celtas utilizavam para
batalhas elmos cônicos ou com cimeiras
portando javalis (a exemplo dos saxões), pássaros
e hastes geométricas laterais. Portanto, a
exemplo dos vikings e outros povos bárbaros,
remanescentes de capacetes celtas não podem
ter inspirado os artistas europeus a partir do
século XVIII.
O
culto do deus chifrudo
Porém,
um detalhe importante deve ser levado em
consideração. Os celtas possuíam um deus
chamado Cernunnnos,[x]
que significa “o chifrudo”, geralmente
representado com duas enormes galhadas de
cervos em sua cabeça. Também em alguns
relevos de prata celta (como o caldeirão de
Gundestrup, de 100 a.C.), junto ao deus Dagda[xi]
e diversos animais, foi representado um homem
portando um elmo com cornos de boi (Cotterell,
1998, p. 121). Uma pequena estatueta do
Staatliche Museen, de origem romana (século
III a.C.), representa um lanceiro celta
completamente despido, portando um elmo com
chifres semelhantes ao touro. Pode tratar-se
na realidade de um antigo guerreiro com algum
tipo de função religiosa ou simbólica.
Um
caso muito semelhante pode ser vislumbrado com
uma placa de bronze da Suécia pré-viking (século
VI d.C.), onde dois guerreiros armados
participam de um baile ritual. Um está
vestindo uma máscara de cabeça de lobo e o
outro, um capacete com cornos de pontas
(Graham-Campbell, 1997, p. 29). Em Londres,
foi encontrado um capacete de bronze com
chifres laterais, datado do século I d.C.
(portanto, já na idade do ferro). Devido à
sua extrema fragilidade para a guerra, foi
considerado cerimonial (Byam, 1990, p. 11).
Todos estes ornamentos possivelmente tiveram
função estritamente religiosa, sendo
utilizados apenas em determinadas situações
– e por pessoas específicas, como
sacerdotes.
O
único caso que conhecemos de um vestígio que
supostamente não condiz com esses aspectos,
foi apresentado por Ole Klindt-Jensen (1960,
p. 91). Um capacete de bronze encontrado na
Dinamarca e datado da idade do bronze (700
a.C.), segundo esse autor, pode ter sido
utilizado para batalhas. O elmo apresenta dois
enormes cornos sinuosos e detalhes simbólicos,
como dois olhos e um nariz em forma de gancho.
Não temos maiores detalhes sobre o contexto
arqueológico em que esse vestígio foi
encontrado, mas a exemplo dos outros
capacetes, uma função religiosa não pode
ser descartada.
Desta
maneira, objetos pertencentes a períodos e
povos anteriores aos vikings, podem ter
motivado a curiosidade e o interesse dos
artistas do século XIX, misturando
aleatoriamente as culturas. Um detalhe
importante não pode ser esquecido. De 1800 a
1860 ocorreram as pioneiras investigações da
arqueologia dinamarqueza, a primeira a
sistematizar a pré-história européia. Duas
publicações em especial, Guide
to Northern Archaeology (1836), de
Christian Thomsen, e Primeval
Antiquities
of Denmark (1843), de Jens Worsae, foram
populares no mundo todo – conhecidas
inclusive por intelectuais brasileiros como
Varnhagen e Manuel Porto Alegre entre
1845/1860. É possível que essas publicações
forneceram subsídios visuais para os artistas
interessados em reproduzir as indumentárias e
equipamentos dos antigos bárbaros – datações
e definições culturais ainda eram muito precárias
na arqueologia européia, levando a enganos
interpretativos. Algumas relíquias arqueológicas
já eram conhecidas na Europa há muitas décadas,
como os cornos de ouro de Gallehus,
descobertos na Dinamarca em 1639, e que
receberam diversos estudos durante o início
do Oitocentos. Consistem de dois cornos do séc.
V d. C., repletos de figuras simbólicas e
runas germânicas (estilo Elder Futhark),
entre as quais um homem portando uma lança
com chifres em sua cabeça. A questão dos
estudos arqueológicos oitocentistas e sua
repercussão para o público e os meios artísticos,
ainda é um campo praticamente sem estudo e
aberto a muitas possibilidades de investigação.
Poder
bárbaro, poder mítico
O
contato dos pintores oitocentistas com esses
detalhes da arte e religião dos povos pré-vikings
não pode ser descartado. No caso específico
da imagem dos vikings, um tema esteve muito
relacionado com a iconografia desde a Idade Média:
a mitologia germânica. Os deuses nórdicos
geralmente eram concebidos em trajes típicos
do período, mas a partir do século XVII
predominaram padrões advindos do mundo
greco-romano.[xii] Isso pode ser constatado com as telas Audhumla,
de N. Abilgaard, e Thor,
de H. Fuseli, ambos de 1790: as formas
masculinas receberam contornos semelhantes aos
padrões helenísticos. Por sua vez, uma estátua
do deus Balder, de B. Fogelberg, 1840, ganhou atributos muito próximos ao
de Cristo e Dionísio. Cenas de reuniões
divinas, como O banquete de Aegir, de C. Hansen, 1861 e A morte de Balder, de C. Eckersberg, 1840, apresentaram os deuses nórdicos
trajados com indumentárias e armaduras
romanas.
Foi
somente com a obra de Richard Wagner que
instaurou-se a moderna representação dos
mitos germânicos e, ao mesmo tempo, fundindo
representações específicas advindas do
mundo celta. Os antepassados históricos e
lendários dos germanos, eram resgatados pelos
ideais oitocentistas enquanto super-homens que
regenerariam o Ocidente caótico, através de
sua organização e comando. É o surgimento
do tipo humano ideal, encenado nas obras
wagnerianas, idealizado nos livros de Nietzche
e glorificado posteriormente pelo nazismo.
Nada personifica melhor a imagem de poder e
força, do que um guerreiro e seu respeitável
elmo com apêndices de animais vigorosos.
Desde a antiguidade, os cornos simbolizam a
abertura de obstáculos, como o aríete de
carneiro, ou os cultos da fertilidade e
prosperidade do touro. A origem da palavra
latina, cornu, coroa, associa-se ao deus
oriental Cilício, sendo um atributo da
fertilidade (Cirlot, 1984, p. 158). Também em
hebraico a palavra “queren” significa ao
mesmo tempo chifre e poder (Chevalier &
Gherbrandt, 1989, p. 234). Desta maneira, uma
mesma representação – o par de cornos -
congregou diversos sentidos para a arte:
virilidade, disciplina, agressividade, força,
poder. A segunda metade do século XIX
sedimentou o sentimento a respeito do bárbaro
e seu equipamento de combate:
“nele
queremos ver a ordem cega, a disciplina de
ferro, toda essa profundeza obscura,
semi-solar, semi-sexual, masculinista que sem
sombra de dúvidas e com a maior soberba
despreza as taras evidentes de que sofre, com
graus diversos de lucidez, nosso insconsciente
coletivo, e que sentimos por trás da suástica
(...) exprime-se, aos nossos olhos, no titânico,
no monumental, no Kolossal.” (Boyer, 1997,
p. 708).
Em
1870, Wagner estreou As
Valquírias, segunda parte da ópera A
canção dos Nibelungos. As valquíras
eram as guerreiras que conduziam os mortos do
campo de batalha para o Valhala, o paraíso
germânico. No cenário de Theodor Pixis para
esta encenação, estas guerreiras foram
representadas portando escudo, malha de ferro
com disco para os seios, capacetes com asas,
braceletes e colares espiralados. No caso
destes últimos ornamentos, houve uma óbvia
influência da cultura celta. Neste mesmo ano
de 1870, o pintor G. von Leeke realizou a tela
As valquíras, já apresentando os mesmos padrões estéticos
utilizados por T. Pixis, com um detalhe:
algumas guerreiras portam o elmo com cornos.
Algumas pequenas variações também ocorrem,
como as valquírias do artista norueguês
Peter Arbo, de 1872. Elas apresentam um elmo
com asas de cisne semelhante aos utilizados
para as encenações da ópera Lohengrin
de Wagner, em 1858. Apesar disso, o padrão
que predominou a partir de então, foi o
modelo com asas laterais – talvez devido às
próprias descrições da mitologia nórdica
tardia, onde as guerreiras seriam também
donzelas-cisnes (Cotterell, 1998, p. 212).
Odin, o pai dos deuses, de uma representação
inicial mais fiel aos relatos vikings – como
a tela homônima de E. Burne-Jones, 1870,
apresentando o deus portando um longo manto e
um chapéu de abas – foi transfigurado em um
guerreiro de malhas de ferro e um elmo com
longas asas de águia. Essa transformação
foi influenciada pela estética da ópera de
Wagner, como podemos perceber na posterior
tela A
licença de Odin, de F. Leeke, 1875.
O
século XIX termina com as duas tendências
artísticas que tratamos até aqui. A primeira
e mais difundida, apresentava tanto os deuses
germânicos quanto os vikings dentro de
referenciais estereotipados. A exemplo do
pintor britânico W. Collingwood, que na tela Os
deuses nórdicos descendo (1890),
representou o deus Tyr[xiii]
com um capacete com chifres de boi. A outra
tendência, totalmente isolada e de pouca
difusão, foi a dos artistas de origem
escandinava que apresentavam os vikings com
grande realismo e os seus deuses baseados nos
relatos medievais. A tela Leif
Erickson descobre a América (1893) do
norueguês Krogh, é um caso bem característico.
Mas
nenhuma pintura oitocentista tematizando bárbaros
foi tão famosa e popular quanto Funeral
de um viking, 1893, de Francis Dicksee.[xiv]
A tela retrata o
momento em que um chefe escandinavo era
incendiado junto a seu barco e pertences,
empurrado ao oceano pelos companheiros. A
principal idéia da pintura é o poder bárbaro
nos moldes do século XIX : imensos
guerreiros, a maior parte com o tronco despido
e com os músculos expostos, portando o
fantasioso elmo com cornos. A maioria dos
guerreiros foram representados de costas, não
permitindo a visibilidade de seus rostos. Essa
particularidade estética remete à idéia de
destino na história: não se pode vislumbrar
o futuro e nem temer a morte do indivíduo,
pois o que importa é o poder da coletividade
e o seu triunfo perante as brumas do tempo.[xv]
Nesta
pintura, um dos únicos homens a se perceber
detalhes da face é uma espécie de líder,
acenando simbolicamente para o morto. Em outra
mão, porta
a tocha que deflagrou a combustão do
barco em chamas. O tema do fogo é uma
constante na tradição germânica. No momento
decisivo-final da ópera de Wagner, O
ouro dos Nibelungos, a valquíria
Brunhilde atira-se na pira funerária do herói
Siegfried, simbolizando o sacrifício
individual para redimir o mundo do caos
(Schneider, 1991, p. 106). O fogo neste caso e
também para a tela de Dicksee, assume um
valor simbólico de purificação, iluminação
e redenção da tragédia do destino e da história.
Um tema que será repetido na arte de C.
Butler (1909), Arthur Rackham (1910) e até
mesmo em pintores contemporâneos, como Anselm
Kiefer (Soares & Schmidt, 1999, p. 71).[xvi]
O
Viking no século XX
O
início do novo século não apresentou
grandes mudanças estéticas, no que se
referia às representações do mundo germânico.
Em uma extensa série de ilustrações para a
ópera A
canção dos Nibelungos, o pintor alemão
Arthur Rackham repetiu todas as figurações
de seus antecessores. Em especial, a ilustração
Hogni e
Brunhilde, de 1910, apresenta o personagem
Hogni[xvii]
com um imenso elmo de cornos, reforçando a
sua terrível natureza malévola. Outro deus
germânico, Odin, teria uma representação
semelhante em 1920, com o ilustrador H.
Theaker.
Quanto
aos vikings, seguia-se a mesma tendência. O Petit
Journal de 1911, publicou a ilustração
de um navio escandinavo ocupado por guerreiros
chifrudos, que até hoje é reproduzida como
capa de livros e revistas. Também a imagem do
bárbaro nórdico foi muito popularizada no
novo século devido ao surgimento do cinema e
das histórias em quadrinhos.
Em
1937, o público norte-americano viu o
surgimento do clássico Prince Valiant, de Harold Foster. Os comics, como eram chamados nos
Estados Unidos as histórias em quadrinhos,
ganharam o status de arte com esse trabalho.
Com cenários deslumbrantes, detalhes anatômicos
e um traço meticuloso, Principe Valente
apresentava um panorama bem elaborado da Idade
Média. Mas apesar desta proposta de pesquisa
visual, que envolvia vestuário, armas, modo
de vida e conduta da cavalaria andante, o
estereótipo oitocentista ainda vigorava
absoluto. Na trama da aventura, Valente é um
cavaleiro descendente de vikings, mas que
juntamente com o rei Artur e seus ingleses,
combatem a invasão de maléficos
escandinavos. Aqui Harold Foster misturou
povos distintos – celtas, anglos-saxões e nórdicos
– num período que vai do século V ao IX.
Além disso, também incluiu elementos típicos
da fantasia medieval, como dragões, gigantes,
duendes e feiticeiros. Em toda a saga, o
invasor viking possui o estatuto de bárbaro
estrangeiro, trazendo a desordem, o caos aos
bons princípios da cavalaria britânica. E é
claro, com sua enorme estatura, ferocidade e
seus possantes elmos com cornos e asas. A série
foi sempre publicada em jornais dominicais,
nunca em tiras, e dispensando o uso de balões.
Os
guerreiros nórdicos também fizeram muito
sucesso a ponto de terem uma saga própria no
cinema, com The
Vikings, em 1958. Dirigido por Richard
Fleischer, foi estrelado por Kirk Douglas,
Tony Curtis e Janeth Leigh. O filme conta a
invasão da Inglaterra pelos escandinavos,
durante o século X, onde ocorre o rapto de
uma princesa inglesa. Além de um roteiro
cuidadoso, a produção contou com elaboradas
pesquisas, reproduzindo com fidelidade desde
os tipos de embarcações, habitações e
vestuário. Os guerreiros foram reproduzidos
corretamente, com a forma dos elmos e
equipamentos originais.
Mas
apesar do sucesso deste filme, os novos comics
trataram de solidificar o imaginário clássico
dos escandinavos: Asterix
(1959); El
capitan Trueno (1960); Thor
(1962); Eric the Noorman (1962), Erik,
the viking (1965). Uma série em especial,
tornou-se responsável pela continuidade do
estereótipo: Hägar,
o horrível (1965). Criado pelo
norte-americano Dik Browne, é até hoje um
dos maiores sucessos de tiras humorísticas em
jornais de todo o mundo. Hagar é um viking
barbudo, gordo, relaxado e beberrão, que como
todos os seus conterrâneos vikings, vive de
saques, pilhagens e aventuras pelo mundo
antigo. Assim como seu filho Hamlet, sua
esposa Helga e seu cachorro Snert, porta um
elmo com grandes cornos. Já sua filha Honi,
sempre veste-se com um elmo de asas e malhas
de ferro – uma inspiração direta no modelo
operístico do século XIX.
Em
1966 surgiram as famosas pinturas do artista
norte-americano Frank Frazetta, que reproduzem
muitas vezes os vikings e seus navios de
batalha sempre dentro da imagem tradicional.
Esse autor também foi responsável pelas
capas das republicações de Conan,
o bárbaro, livros de fantasia medieval
escritos por Robert Howard em 1932. As
diversas adaptações desse personagem para os
quadrinhos na década posterior, acabou também
por popularizar a imagem de
todo guerreiro bárbaro utilizando elmos
com cimeiras de chifres, asas e outros
ornamentos. O filme homônimo de 1982, um
grande sucesso estrelado por Arnold
Schwarzenegger, reflete bem essa tendência: o
cartaz oficial apresenta o bárbaro levantando
uma espada brilhante, portando um elmo de
couro com diversas pontas e dois cornos.
Mas
apesar da imagem oitocentista predominar
absoluta no imaginário moderno, alguns
trabalhos recentes tentaram modificar esse
panorama. Em 1970, o pintor Tom Lovell – por
encomenda da National Geographic Society de
Washington - realizou telas retratando o mundo
viking. Foram dezenas de pinturas que
reconstituiram com excelente precisão, desde
cenas cotidianas e domésticas, até batalhas
e incursões além mar. O artista utilizou-se
dos mais atualizados conhecimentos arqueológicos
e históricos, para realizar perfeitas
representações dos intrépidos guerreiros. O
material de Lovell foi parcialmente publicado
na revista National
Geographic, em abril de 1970.
Influenciado
por este trabalho, em 1975 foi impressa em
Londres uma coleção didática sobre os
antigos escandinavos, ilustrada pela dupla
Dick Eastland e Richard Kook. Os pesquisadores
mais exigentes começavam a dispor de toda uma
série de imagens que contradiziam tudo o que
se pensava sobre o assunto. Foi o caso de Jean
Van Hamme e G. Rosinski, que em 1975 criaram a
saga em quadrinhos Thorgall.
Com um admirável traço e requintadas sequências
panorâmicas, o universo nórdico foi
recuperado dentro de padrões mais condizentes
com a antiga realidade histórica e, até
mesmo, mitológica.
Também
alguns filmes recentes seguem essa tendência:
As
aventuras de Erik, o viking, 1989, de
Terry Jones, e O 13o guerreiro,
de 1999. Porém, em referenciais visuais, o
melhor resultado foi com o documentário The
vikings’ Saga, do canal de TV
norte-americano BBC/Discovery Channel,
produzido em 1999. Este documentário não
preocupou-se apenas em modificar a imagem
estereotipada do escandinavo. Também
apresentou outras características da
sociedade viking – tentando igualmente mudar
o conceito do homem moderno sobre o bárbaro nórdico
e sua inclusão no processo histórico da
Europa. Afinal, o artista e o historiador
devem unir-se para desmistificar estereótipos,
modificar conceitos ou abandonar velhas
imagens.
O
mito na modernidade esteve intimamente ligado
com a arte e, em especial, às artes plásticas
e a literatura. Justamente porque ele se
manifesta e sobrevive através de imagens simbólicas,
um dos veículos básicos da linguagem artística.
O imaginário vislumbrado por nós até aqui
– o poder do bárbaro germânico – surgiu
durante o século XIX com os mesmos valores e
significados, tanto na poesia, quanto na ópera
e na pintura. Como já verificamos, os
pintores e escultores seguiram este mesmo
interesse com diversos trabalhos. O auge desta
tendência em recuperar temas mitológicos
germânicos, surgiu com a música de Richard
Wagner, entre 1865 e 1876: “Era a primeira
vez que um músico ousava substituir os deuses
gregos por deuses escandinavos.” (Schneider,
1991, p. 100). E é justamente neste período
que ocorre a criação do estereótipo, da
imagem idealizada e fantasiosa do bárbaro por
parte dos artistas. Portando capacetes
cornudos, o bárbaro atendia a necessidade de
se criar uma identidade poderosa no passado
histórico com o momento vivido. Com isso, a
arte foi impregnada de uma história – não
a história tradicional, e sim uma
reinterpretação mítica de um passado
imemorial, servindo aos anseios de uma
coletividade